quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Festa de noivado
O NOIVO:
Sejam todos bem-vindos!
ALGUNS CONVIDADOS:
Muito obrigado!
O NOIVO:
Vocês chegaram
com meia hora de antecedência.
O PAI DA NOIVA:
Não seja inconveniente
com os seus convidados.
Eles poderiam muito bem
não terem vindo.
Não fica grato
pela presença deles?
O NOIVO:
Claro que fico!
O senhor está sendo
injusto comigo.
A MÃE DA NOIVA:
Querido, deixe-o em paz.
O CARTEIRO:
Tenho aqui algumas cartas.
Quem pode recebê-las?
O GARÇOM:
Sabe se alguém lembrou
desse pobre garçom?
O CARTEIRO:
Deixe-me ver...
Como se chama?
O PAI DA NOIVA:
Por que alguém
te mandaria uma carta
na festa de noivado
da minha filha?
O GARÇOM:
Mamãe anda meio doente...
Fico preocupado com ela.
O PAI DA NOIVA:
Então por que não
mandam o raio da carta
pra tua casa?
ALGUNS CONVIDADOS:
O cheiro que vem
da cozinha é tão bom.
PANTAGRUÉLICO:
Seus esfomeados!
Só pensam em comida!
O GARÇOM:
Trarei alguns salgadinhos.
OS AMIGOS:
Enfim, chegamos!
Olha como tudo
está lindíssimo;
enfeitaram tudo mesmo.
Onde está a noiva?
O NOIVO:
Fico feliz por vocês
terem vindo.
A noiva está se arrumando.
O VIGARISTA:
Como esse rapaz
está bem arrumado.
Quase não o reconheci.
A MÃE DA NOIVA:
Realmente, meu genro
está a coisa mais linda
desse mundão de Deus.
O PAI DA NOIVA:
Não exagere, mulher!
O NOIVO:
Sentem-se todos.
Em breve, a música
tocará e todos poderão dançar.
PÉ-DE-VALSA:
Maravilha!
É o que eu mais quero!
PANTAGRUÉLICOS:
Seus esfomeados,
lá vem a comida.
ALGUNS AMIGOS:
Olha quem fala.
Você será o primeiro
a atacá-la.
Não seja hipócrita!
O VIGARISTA:
Acabei de montar
um negócio muito lucrativo.
O MAGRO:
E que negócio é esse?
O VIGARISTA:
Se você não sabe,
eu sou diretor de uma empresa.
Como diretor, tenho acesso
a todas as finanças.
O JUSTO:
Está roubando?
O VIGARISTA:
Não senhor.
Eu não roubo.
Eu apenas desvio
certa quantia de dinheiro
para uma conta fantasma.
Já consegui acumular
uma pequena fortuna.
O JUSTO:
Se isso não é roubo,
é o que, então?
O VIGARISTA:
É um desvio financeiro
o qual o dono
jamais sentirá falta.
O PAI DA NOIVA:
Calem a boca,
suas matracas velhas!
Minha filha vem ai.
ALGUNS CONVIDADOS:
Ela é a noiva
mais linda do mundo.
O NOIVO:
Com toda a certeza, é sim!
A MÃE DA NOIVA:
Estou muito emocionada.
Ontem, minha filhinha
tinha quatro aninhos.
Hoje, ela é uma
mulher deslumbrante.
O PAI DA NOIVA:
Se controla, mulher.
A FILOSOFA:
Esses noivos
têm um amor
que veio
não sei de onde
com cara
não sei do quê.
O CONQUISTADOR:
Que lindo dizer.
Pena que não foi
tão lindo quanto
quem o disse...
O GARÇOM:
(Como será que está
a minha pobre mãe,
Deus do Céu?)
A festa está
ficando animada.
PÉ-DE-VALSA:
Dona Filosofa,
quer dançar comigo?
Garanto que
vai se divertir...
A FILOSOFA:
Não sei bem.
A diversão
é algo relativo.
Talvez eu me divirta.
Talvez eu não me divirta.
O CONQUISTADOR:
Minha flor, chega
de lengalenga.
Vem bailar nos
meus braços fortes.
PÉ-DE-VALSA:
Eu a chamei primeiro.
Por que você
se mete, seu abusado?
O CONQUISTADOR:
Abusado é o pai!
A NOIVA;
Vocês brigarão
para ver quem dança
com a Filosofa
na minha festa?
O VIGARISTA:
Madame, ninguém
aqui sairá no tapa.
O PAI DA NOIVA:
Ainda bem.
Caso contrário,
sentirão a força
do meu braço.
O CONQUISTADOR:
O velhote quer
medir força comigo...
A FILOSOFA:
A força, meus caros,
se vocês pensarem
é algo relativo,
e ainda arrisco dizer
que também é abstrata.
O PAI DA NOIVA:
Não é não.
Vou lhes mostrar...
O NOIVO:
Chega!
Não quero briga
na festa mais
importante da minha vida.
Quem ousar brigar,
vai pro olho da rua.
Estamos entendidos?
O VIGARISTA:
Vamos respeitar
o noivado do moço.
ALGUNS CONVIDADOS:
Que bom!
Os ânimos
se acalmaram.
O CONQUISTADOR:
Um quebra-pau
deixaria tudo mais animado.
O NOIVO:
Quero pedir a atenção de todos.
Hoje, é um dia muito especial,
porque corroboro o meu noivado
com uma mulher magnífica.
Hoje, posso dizer que eu sou
um homem extremamente feliz.
A NOIVA;
Meu amor, eu digo o mesmo.
Você transformou-se na razão
da minha simplória existência.
Contigo quero viver os anos
que me restam – com alegria e amor.
A FILOSOFA:
O Amor é um bem
que salva as almas.
do sofrimento e da agonia
que cingem os nossos dias.
O GARÇOM:
(Minha mãe ficará bem,
louvado seja o Senhor!)
A maneira como eles
se amam me deixa comovido.
O CONQUISTADOR:
Nunca senti
um sentimento assim.
O VIGARISTA:
Já é hora de você
começar a olhar
as mulheres pelo coração
e não pelo corpo, somente.
O JUSTO:
Já é hora
de você ter caráter
e parar de roubar.
O VIGARISTA:
Lhe disse anteriormente
que eu não roubo.
Pare de insistir
nisso, por favor?
OS AMIGOS:
Que festa mais bonita.
Eles mereciam
celebração assim.
O PAI DA NOIVA:
Minha filha merece
as melhores coisas sempre.
A FILOSOFA:
Nem sempre o melhor é o melhor.
Às vezes, preferir
o que não seria o melhor
é a melhor opção.
PÉ-DE-VALSA:
Tô ficando apaixonado
por essa mulher.
O CONQUISTADOR:
Veremos compadre
quem ficará com ela no final...
A FILOSOFA:
Nunca dois homens
competiram por mim.
Isso mostra que eu
me tornei uma mulher
relativamente atraente.
O MAGRO:
Muito atraente...
PANTAGRUÉLICO:
O rango já terminou?
O MAGRO:
Alguns convidados
foram embora.
PANTAGRUÉLICO:
Assim sobra mais comida.
A MÃE DA NOIVA:
Nunca esquecerei
esse dia.
O PAI DA NOIVA:
Tenho que confessar
que eu também nunca esquecerei.
O VIGARISTA:
O homem de concreto
está amolecendo...
O PAI DA NOIVA:
Debocha de mim,
seu ladrão?
A NOIVA:
Dancemos a última música.
O NOIVO:
Escolha o seu par
e parta pra pista.
O CARTEIRO:
Me esqueceram
no canto a festa inteira
com as cartas na mão.
Agora, vejo os noivos
se acabarem de dançar,
o garçom de chorar
(por profundas saudades
de sua mãe),
o Magro, o Conquistador
e o Pé-de-valsa terem
dor-de-cotovelo
porque o Justo tirou
a Filosofa para dançar
falando: "A justiça
é uma coisa inenarrável,
porém mais inenarrável
seria dançar com
uma princesa
como você."
Quem será a alma caridosa
que enfim pegará
essas cartas?
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