terça-feira, 16 de março de 2010

Os anos passam

- ... mas, pai, por que eu não posso ir?
- Eu já lhe disse.
- Eu sei disso. Mas, quero saber por que eu não posso sair com o meu namorado?
- Porque ele não é namorado para você, minha filhinha.
- E o que o senhor entende de namorado, pai?
- Eu entendo muita coisa!
- Pai, eu amo ele. Ele é o homem da minha vida!
- Você não sabe o que diz...
- Um dia, casarei com ele, o senhor vai ver...
- Ora bolas!
- O senhor não pode impedir o nosso amor. Estamos nos amando de verdade.
- Vocês ainda são muito jovens. Não sabem o que é o amor.
- Nós sabemos, sim, senhor!
- Aquele rapaz não me parece ser um bom moço...
- Só por causa do cabelo dele?
- E você acha pouco? Além do mais, que tipo de homem anda com as calças no joelho, piercing na língua e no nariz, brinco nas orelhas e é tatuado? Para mim ele é um marginal, que quer se aproveitar da filha inocente dos outros.
- O senhor está sendo preconceituoso. O Rick não é nada disso...
- "Rick"? Os pais dele o batizaram assim? Meu Deus...
- Claro que não! Ele se chama Ricardo. Eu o chamo de Rick porque é um apelido carinhoso, pai. O senhor não chama a mãe de um apelido carinhoso também?
- Isso não é da sua conta, menina exerida!
- Pai, o senhor é tão bonzinho comigo. O senhor gosta de me ver feliz, não é?
- Gosto, filhinha...
- Então! Deixa eu sair com o Rick. Eu volto antes da meia-noite. Eu prometo.
- Você está louca? Você só tem 16 anos. E menina de 16 anos não fica na rua até tarde. Perdeu o juízo?
- Eu tenho 21 anos, pai! Não sou mais a sua menininha. Não sou mais aquela que sentava no seu colo, enquanto, o senhor assistia à partida de futebol. Nem sou aquela que dormia sob o som cadenciado da sua voz, quando o senhor lia aquelas fábulas lindas. Eu cresci. Não sou mais aquela menininha.
Fez-se um longo minuto de silêncio entre pai e filha.
- Nem tinha me dado conta do quanto você cresceu.
- Pai, eu estou atrasada agora. Quando eu voltar, juro que lhe dou aquele leitinho quente e as bolachas que o senhor tanta gosta.
A filha deu um beijo estalado na testa do pai, e este sentou-se boquiaberto na cadeira, pensando nos anos que haviam se passado.

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